segunda-feira, 13 de junho de 2016

A sombra do bicho da seda (sanguínea III)

A minha casa. Definição: um casulo onde hiberno escondida, quando nada me atrai ou prende na rua. Nessas alturas, todas as tarefas rotineiras me dão prazer, como, por exemplo, recolher a roupa que enxugou ao sol. Sinto, nesses momentos, o meu corpo plasmado pela luz implacável, de cena, e constato que a minha figura, projetada sobre o lençol branco, representa, com afinco, um papel, que desconheço, num teatro de sombras. E digo-lhe, sorrindo de mim para mim: «segue o teu caminho. Um dia haveremos de trocar de lugar». Sinto, com prazer, o toque do algodão na minha mão, cheio de suavidade, desposando-me com anéis e ofertando-me pulseiras furta-cores. Este é o meu lar. Uma sucessão de caixas divisórias, cheias de ar, luz e penumbra. E memórias, se as quiser. E esquecimento, se o desejar. Sim, devo estar a representar para mim própria, simultaneamente no palco e na plateia, partilhando um sorriso que brota de forma genuína das profundezas das veias do espectador. Serei, por certo, uma excelente atriz, incapaz de abandonar a sua personagem, a máscara, a distração dos atavios.

Sanguínea II

Na prosa dos dias, as linhas deste texto tocam, tangentes, a tua figura. Encontro, quando quero, o calor que emana do deserto que recobre a tua pele, os oásis nas margens dos teus membros áureos. A tua presença tange o meu eu. A vertigem colocou-me em ti; transpus, sem quaisquer pertences, as fronteiras e cheguei ao exílio. Compraz-me a praia selvagem em que me instalei, os ventos que por aqui passam e agitam a vegetação resiliente. Colho, com modos lentos, algumas plantas para formar um ramo que possa levar comigo. Pico-me e sangro.