quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Liberdade e confiança

-Pois, por onde hei-de começar?-  e, proferida esta interrogação, interrompeu-se, enquanto a outra fixava, expectante, a sua boca entreaberta pela modulação da última sílaba. Com o silêncio a expressão tornou-se ausente. Desistira? Enfim, talvez não tivesse nada de relevante que merecesse ser dito e ouvido. Percebendo que a sua interlocutora estava a impacientar-se, procurou retomar uma ponta do discurso. Havia uma ponta já preparada, mas a meada embrulhara-se.
- Eu acho que nos devemos procurar definir a partir de uma matriz de comportamentos inatos ou algo que o valha. Coisas que nos são reveladas desde muito cedo, bem lá atrás, através de situações concretas, que são identitárias. Comportamentos que estão de acordo com atitudes e valores que funcionam como uma espécie de software de sistema, tão próprios como a forma do nariz e das mãos.
A outra limitou-se a encolher os ombros, mantendo a mesma atitude tensa.
-Tomando esta perspetiva e particularizando uma caraterística, há pessoas que se entregam a outras, a uma ou a várias, com o fito de se encaixarem melhor num grupo de pertença, consolidando a confiança, as sinergias, obtendo prazer, o que seja. E no extremo oposto, temos aquelas que apenas afloram a vizinhança dos outros e não lhe dão azo a maiores aproximações. Reconhece-las facilmente no balneário de um ginásio. Independentemente da aparência, sentem repulsa em despirem-se junto dos outros utentes. Odeiam a exposição e a banalização do seu corpo pelos olhares dos outros. Não gostam de dar confiança a estranhos, pois vivem no seu templo.
- Está bem, Diana. Isso parece-me antes uma fobia. Mas onde queres chegar? Bem sabes que muito de nós é adquirido – juntou Ana, ao mesmo tempo que rodava o corpo de 90º sobre o assento, colocando-se de perfil, como se quisesse evitar o embate frontal das palavras da outra na sua face.
- Moldei-me deliberadamente. Primeiro, quis dominar-me e submeter-me de forma sistemática, e depois pretendi, ao invés disso, libertar-me e conduzir o meu desejo, resgatado à razão, como se fosse um Ferrari com o depósito atestado. O pé tão nervoso quanto a máquina. Não resultou. Encher o carro de gente tão doida quanto eu e tu seriamos capazes de ser ou atropelar ou suicidar-me de encontro a um muro não estão no meu programa. É neste ponto que nos demarcamos. Não podemos fazer uso da liberdade da mesma forma. Então Diana agarrou o pulso de Ana, e, por fim, convicta, concluiu – a confiança é a base de todas as relações. De forma livre, tu espalhas-la por quem te apraz enquanto eu a reservo para uma pessoa de cada vez, de quando em vez. 

Grande pose de uma pequena árvore

sábado, 15 de outubro de 2016

A digestão de um anjo (versão n)



Deixa-me debruar as asas, entre as pedras de sal, no pó do café

Quero perder penas, pois que o vento as arrecade

Penas arrancadas, no esforço do desapego

Ao tempo o que é do tempo, ainda que o presente me pareça depenado

Sou de vidro, diáfano, quase polido

Debruço-me sobre ti, apoiado numa aresta quebrada

Observo-te através do rubi de um cálice meio cheio, mas, claro, meio vazio

É fácil recolher-me agora, entre os cotovelos e os joelhos, saciado, após o repasto

Entorpecido pela vertigem do vinho que me tomou o sangue

Antes que a pena morda a cor deste dia




Prova de vida



De súbito pareceu-lhe que o chilreado das andorinhas teria surgido de outra dimensão. Sentada num banco de madeira, junto à porta de um bar, aguardava, com os pés na estrada, pelos tacos de frango com pera abacate, que havia encomendado há já algum tempo. Entrincheirada na rua estreita, que começava a recobrir-se de prússia, seguia, no céu livre, o rasto das andorinhas que se lançavam na liquidez do fim da tarde. Pressentiu dali o seu desígnio. A sua liberdade estava acima de todos os escolhos e becos sem saída. Estava acima dos argumentos que nos canalizam através das linhas de esgotos; das campanhas promocionais incontornáveis; das armadilhas dos afetos; da figura, a sua, que ressurge, a cada dia, no espelho e se olha sem referente; das análises clínicas que nos informam sobre a qualidade do sangue que avança, sem que lhe o peçam, pela rede vascular; dos raios X que revelam elementos de uma paisagem branca, comprimida entre os músculos, acima dos algares em que mergulham os nossos órgãos fiéis e incansáveis. 

As andorinhas projetavam-se para a frente, planando ou agitando energicamente as asas, na captura do último alimento do dia. Eis o seu exemplo, singular e coletivo. Mas ela continuava ali; um ponto sobre uma frincha do casario centenário, onde tantas memórias de existências, como a dela, haviam perecido. E saboreava esse mesmo veneno, que sabia esvair-se das paredes em redor, ao mesmo tempo que degustava a nitidez das silhuetas negras, na tela imaterial do céu, como se tal evidência fosse a sua última prova de vida. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A sombra do bicho da seda (sanguínea III)

A minha casa. Definição: um casulo onde hiberno escondida, quando nada me atrai ou prende na rua. Nessas alturas, todas as tarefas rotineiras me dão prazer, como, por exemplo, recolher a roupa que enxugou ao sol. Sinto, nesses momentos, o meu corpo plasmado pela luz implacável, de cena, e constato que a minha figura, projetada sobre o lençol branco, representa, com afinco, um papel, que desconheço, num teatro de sombras. E digo-lhe, sorrindo de mim para mim: «segue o teu caminho. Um dia haveremos de trocar de lugar». Sinto, com prazer, o toque do algodão na minha mão, cheio de suavidade, desposando-me com anéis e ofertando-me pulseiras furta-cores. Este é o meu lar. Uma sucessão de caixas divisórias, cheias de ar, luz e penumbra. E memórias, se as quiser. E esquecimento, se o desejar. Sim, devo estar a representar para mim própria, simultaneamente no palco e na plateia, partilhando um sorriso que brota de forma genuína das profundezas das veias do espectador. Serei, por certo, uma excelente atriz, incapaz de abandonar a sua personagem, a máscara, a distração dos atavios.

Sanguínea II

Na prosa dos dias, as linhas deste texto tocam, tangentes, a tua figura. Encontro, quando quero, o calor que emana do deserto que recobre a tua pele, os oásis nas margens dos teus membros áureos. A tua presença tange o meu eu. A vertigem colocou-me em ti; transpus, sem quaisquer pertences, as fronteiras e cheguei ao exílio. Compraz-me a praia selvagem em que me instalei, os ventos que por aqui passam e agitam a vegetação resiliente. Colho, com modos lentos, algumas plantas para formar um ramo que possa levar comigo. Pico-me e sangro.