Estes dias vi-me esvaziada como aqueles tubos de dentífrico dos quais esprememos, com intenções ecológicas, toda a pasta branca listada de vermelho e sabor artificial/natural. Hoje, escolhi um vestido tubular, de cor neutra, e organizei a cabeleira numa espiral disciplinada, presa na nuca. Calcei sapatos com um pouco de tacão que me recordam, a cada momento, o esforço da compostura. Com os meus modos antiquados, demarco-me das mulheres jovens de agora, que pronunciam despudoradamente palavrões pelas calçadas.
O senhor apareceu, ficou um pouco a aguardar o cliente seguinte, e segui-o, pois era a minha vez. Imagino, enquanto nos encaminhamos para o seu gabinete, que se sinta aliviado por antever que não lhe trarei problemas. Independentemente do meu saldo bancário, tem, perante si, alguém satisfeito por se escudar no formalismo que o seu atendimento merece. Enquanto o observo nos procedimentos preliminares, confiro a colocação da máscara e o nível do vocabulário que vou empregar, de forma cuidada, junto de si. Se conseguisse ler nos meus olhos, poderia participar na conversa muda que mantenho à sua secretária. O senhor trata diligentemente do assunto que aqui me trouxe, mas que na verdade desprezo. Contudo, não se preocupe, pois não lhe falto ao respeito, já que sou bem-educada. Você tem ótimo aspeto e esse fato, afinal uma farda elegante, até lhe assenta bem. Fico com alguma curiosidade em o imaginar numa pose mais casual no sofá da sua sala, mas abandono rapidamente a sua porta, não obstante, satisfeita com esta breve alusão, pois a máscara na minha face é repousante e alivia as rugas. Apesar de lhe reconhecer bons padrões de proficiência, menosprezo o seu trabalho, o seu faz-de-conta, os cliques com que impulsiona bites, a familiaridade com que acede a menus e à descrição dos meus movimentos de conta e atos de consumo; sim fui ao ALDI e bebi alguns cafés no shopping. Esta e outras invasões da minha privacidade são compreensíveis, sobretudo da sua parte, já que temos, por certo, algo em comum. Têm despedido muitos colegas seus e devemos sentir-nos felizes por termos emprego e recebermos o estritamente necessário para entregarmos nos hipermercados que se insinuaram nas nossas rotinas. É a roda, meu caro, inventada há milhares de anos. Haja saúde, que adoecer é outro transtorno e tanto. Eu sobrevivo, e você? Disse alguma coisa? O seu fato, repleto de si, responde afirmativamente. Pois olhe, esta minha aparência é somente uma velha embalagem que, eu própria, esvaziei até ao fim!