terça-feira, 9 de outubro de 2018

Poema negro

Recebi por interposto mediador o último calor do teu corpo
Amparei, tal mensageiro, na sua rigidez derradeira 
Ainda a tempo de os meus dedos colherem a última agitação dos teus átomos 
De embalarem os meus numa dança que hão-de perpetuar 
De tanto te desejar sei que haverias de passar por aqui 
Avanças, para lá de mim, pela mão amiga da poesia negra.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Às árvores


Deslizando ao longo da estrada habitual, sob a luz incendiária do princípio do outono, noto as árvores, através das manchas luminosas com que se destacam na paisagem. Detenho-me num grupo, numa, noutra, nos ramos retesados no ar, oferecendo a delicada folhagem. As árvores que ora são beijadas pelo Sol ora suportam no corpo lenhoso as intempéries e a incerteza. Há quanto tempo me faço a esta estrada, acelerando sobre fragmentos de sonhos, contornando frustrações, enquanto revejo pormenores mais urgentes do quotidiano. Às árvores peço identidade, aquela que elas dão aos lugares. Às raízes, solicito que me retenham, pois a estrada que bordejam, e que percorro ininterruptamente, não anuncia promessas. De um lado, a serra insinua mistérios, mas o futuro já se estreita pela frente. À minha direita, acompanha-me o banco vazio, atrás a pasta do computador, o saco das compras. Ainda, pois, talvez! Ainda gostaria de fazer isto; não, não gostaria de fazer nada, não vou perder mais tempo com aquilo. Das árvores, pretendo a lenha fria mordida pelo vento e, mais ainda, o balanço que emprestam às aves, quando delas se desprendem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Ganhando embalagem

Estes dias vi-me esvaziada como aqueles tubos de dentífrico dos quais esprememos, com intenções ecológicas, toda a pasta branca listada de vermelho e sabor artificial/natural. Hoje, escolhi um vestido tubular, de cor neutra, e organizei a cabeleira numa espiral disciplinada, presa na nuca. Calcei sapatos com um pouco de tacão que me recordam, a cada momento, o esforço da compostura. Com os meus modos antiquados, demarco-me das mulheres jovens de agora, que pronunciam despudoradamente palavrões pelas calçadas.

O senhor apareceu, ficou um pouco a aguardar o cliente seguinte, e segui-o, pois era a minha vez. Imagino, enquanto nos encaminhamos para o seu gabinete, que se sinta aliviado por antever que não lhe trarei problemas. Independentemente do meu saldo bancário, tem, perante si, alguém satisfeito por se escudar no formalismo que o seu atendimento merece. Enquanto o observo nos procedimentos preliminares, confiro a colocação da máscara e o nível do vocabulário que vou empregar, de forma cuidada, junto de si. Se conseguisse ler nos meus olhos, poderia participar na conversa muda que mantenho à sua secretária. O senhor trata diligentemente do assunto que aqui me trouxe, mas que na verdade desprezo. Contudo, não se preocupe, pois não lhe falto ao respeito, já que sou bem-educada. Você tem ótimo aspeto e esse fato, afinal uma farda elegante, até lhe assenta bem. Fico com alguma curiosidade em o imaginar numa pose mais casual no sofá da sua sala, mas abandono rapidamente a sua porta, não obstante, satisfeita com esta breve alusão, pois a máscara na minha face é repousante e alivia as rugas. Apesar de lhe reconhecer bons padrões de proficiência, menosprezo o seu trabalho, o seu faz-de-conta, os cliques com que impulsiona bites, a familiaridade com que acede a menus e à descrição dos meus movimentos de conta e atos de consumo; sim fui ao ALDI e bebi alguns cafés no shopping. Esta e outras invasões da minha privacidade são compreensíveis, sobretudo da sua parte, já que temos, por certo, algo em comum. Têm despedido muitos colegas seus e devemos sentir-nos felizes por termos emprego e recebermos o estritamente necessário para entregarmos nos hipermercados que se insinuaram nas nossas rotinas. É a roda, meu caro, inventada há milhares de anos. Haja saúde, que adoecer é outro transtorno e tanto. Eu sobrevivo, e você? Disse alguma coisa? O seu fato, repleto de si, responde afirmativamente. Pois olhe, esta minha aparência é somente uma velha embalagem que, eu própria, esvaziei até ao fim!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Letras estrangeiras


já é dia e tocou a hora.
Levantas-te da trave, 
Azeda como azeitona. 
O som da letra alheia pinga e escorre 
Pela gola do casaco fechado. 
Esticas o pescoço de garça, 
Alisas as penas de flamingo 
Sobre um pé, em esforço. 
Bebericas uma farsa doce 
De olhos postos na travessa; 
Na travessa de açorda servida à pressa. 
E já a noite da praxe chega, de rompante 
E logo abala balançando, 
pelo rasto das letras
de músicas estrangeiras.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Lembrando o que lembrava

Era eu muito nova e caminhava junto do meu pai. Nessa altura, ainda mal o conhecia. Aliás, eu ainda estranhava tudo, tanto os fenómenos da natureza, como o comportamento das pessoas. A estranheza causava-me uma sensação simultaneamente agradável e desconfortável, entre a surpresa e o déjá-vu. O meu pai era um estranho que tanto podia ser afável como distante. Então, muito sério, ele pôs-se a contar uma história mirabulante, em que os intervenientes tropeçavam e rebolavam em cadeia. Ri-me, feliz por ele ter estendido aquela ponte entre nós, e acentuei o meu interesse pelas suas palavras. Veio o dia em que o meu pai morreu. O acumular de anos sobre esse facto tornou-o vago e inverosímil. Quase duvido que alguma ele vez tenha existido. É pois surpreendente que a estranheza original ainda hoje me perturbe.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pelo teu país


As aves agitam a derradeira quietude da tarde.

Bebo a luz remanescente

que acende os teus ângulos e sulcos

a tua matéria,

o teu tempo.



Afloro, com os dedos acesos,

uma nova parcela do teu rosto.

Do planalto dos teus ombros

já não vislumbro nem idade

nem fronteiras.



Admiro,

para além do que a vista alcança,

o teu chão uno,

que, com o coração e a vontade, soube poupar

ao meu indene desejo.