quinta-feira, 19 de outubro de 2017
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Lembrando o que lembrava
Era eu muito nova e caminhava junto do meu pai. Nessa altura, ainda mal o conhecia. Aliás, eu ainda estranhava tudo, tanto os fenómenos da natureza, como o comportamento das pessoas. A estranheza causava-me uma sensação simultaneamente agradável e desconfortável, entre a surpresa e o déjá-vu. O meu pai era um estranho que tanto podia ser afável como distante. Então, muito sério, ele pôs-se a contar uma história mirabulante, em que os intervenientes tropeçavam e rebolavam em cadeia. Ri-me, feliz por ele ter estendido aquela ponte entre nós, e acentuei o meu interesse pelas suas palavras. Veio o dia em que o meu pai morreu. O acumular de anos sobre esse facto tornou-o vago e inverosímil. Quase duvido que alguma ele vez tenha existido. É pois surpreendente que a estranheza original ainda hoje me perturbe.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Pelo teu país
As aves agitam a derradeira quietude da tarde.
Bebo a luz remanescente
que acende os teus ângulos e sulcos
a tua matéria,
o teu tempo.
Afloro, com os dedos acesos,
uma nova parcela do teu rosto.
Do planalto dos teus ombros
já não vislumbro nem idade
nem fronteiras.
Admiro,
para além do que a vista alcança,
o teu chão uno,
que, com o coração e a vontade, soube poupar
ao meu indene desejo.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Oráculo
Escrevo-te, traçando letras com um lápis de grafite.
As letras entreolham-se sem saberem o que dizer. Apenas aprovam com um ponto de exclamação o sinal de interrogação no final de uma frase equivocada.
Com arrojo, acrescento novas palavras soltas, pioneiras indefesas, que logo se sentem perdidas. Os carateres acham-se nus e, de imediato, cobrem-se com os braços, as pernas, os acentos, as cedilhas, transformando-se em pontos finais e reticências.
As palavras são inúteis. Melhor seria que eu pegasse num pincel e pintasse o teu retrato, tendo como fundo as luzes da cidade pousadas sobre o teu casaco.
Na Natureza não há lugar para traços, riscos ou letras. As manchas são a sua linguagem.
Desisto, assim, da escrita e passo a pintar.
Deixo-me dirigir pelas manchas. A seu belo prazer, elas espalham-se em tons quentes, ocres aquecidos por empastelamentos, enrubescidos por velaturas, mas que rapidamente esfriam e se mesclam em cinzentos sujos. Raspo a superfície da tinta coalhada. Cinzento. Olhos de cego. São esses os olhos que nos fixam, indizíveis.
As letras entreolham-se sem saberem o que dizer. Apenas aprovam com um ponto de exclamação o sinal de interrogação no final de uma frase equivocada.
Com arrojo, acrescento novas palavras soltas, pioneiras indefesas, que logo se sentem perdidas. Os carateres acham-se nus e, de imediato, cobrem-se com os braços, as pernas, os acentos, as cedilhas, transformando-se em pontos finais e reticências.
As palavras são inúteis. Melhor seria que eu pegasse num pincel e pintasse o teu retrato, tendo como fundo as luzes da cidade pousadas sobre o teu casaco.
Na Natureza não há lugar para traços, riscos ou letras. As manchas são a sua linguagem.
Desisto, assim, da escrita e passo a pintar.
Deixo-me dirigir pelas manchas. A seu belo prazer, elas espalham-se em tons quentes, ocres aquecidos por empastelamentos, enrubescidos por velaturas, mas que rapidamente esfriam e se mesclam em cinzentos sujos. Raspo a superfície da tinta coalhada. Cinzento. Olhos de cego. São esses os olhos que nos fixam, indizíveis.
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