segunda-feira, 29 de maio de 2017

Lembrando o que lembrava

Era eu muito nova e caminhava junto do meu pai. Nessa altura, ainda mal o conhecia. Aliás, eu ainda estranhava tudo, tanto os fenómenos da natureza, como o comportamento das pessoas. A estranheza causava-me uma sensação simultaneamente agradável e desconfortável, entre a surpresa e o déjá-vu. O meu pai era um estranho que tanto podia ser afável como distante. Então, muito sério, ele pôs-se a contar uma história mirabulante, em que os intervenientes tropeçavam e rebolavam em cadeia. Ri-me, feliz por ele ter estendido aquela ponte entre nós, e acentuei o meu interesse pelas suas palavras. Veio o dia em que o meu pai morreu. O acumular de anos sobre esse facto tornou-o vago e inverosímil. Quase duvido que alguma ele vez tenha existido. É pois surpreendente que a estranheza original ainda hoje me perturbe.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pelo teu país


As aves agitam a derradeira quietude da tarde.

Bebo a luz remanescente

que acende os teus ângulos e sulcos

a tua matéria,

o teu tempo.



Afloro, com os dedos acesos,

uma nova parcela do teu rosto.

Do planalto dos teus ombros

já não vislumbro nem idade

nem fronteiras.



Admiro,

para além do que a vista alcança,

o teu chão uno,

que, com o coração e a vontade, soube poupar

ao meu indene desejo.






terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Oráculo

Escrevo-te, traçando letras com um lápis de grafite.
As letras entreolham-se sem saberem o que dizer. Apenas aprovam com um ponto de exclamação o sinal de interrogação no final de uma frase equivocada.
Com arrojo, acrescento novas palavras soltas, pioneiras indefesas, que logo se sentem perdidas. Os carateres acham-se nus e, de imediato, cobrem-se com os braços, as pernas, os acentos, as cedilhas, transformando-se em pontos finais e reticências.

As palavras são inúteis. Melhor seria que eu pegasse num pincel e pintasse o teu retrato, tendo como fundo as luzes da cidade pousadas sobre o teu casaco.

Na Natureza não há lugar para traços, riscos ou letras. As manchas são a sua linguagem.

Desisto, assim, da escrita e passo a pintar.


Deixo-me dirigir pelas manchas. A seu belo prazer, elas espalham-se em tons quentes, ocres aquecidos por empastelamentos, enrubescidos por velaturas, mas que rapidamente esfriam e se mesclam em cinzentos sujos. Raspo a superfície da tinta coalhada. Cinzento. Olhos de cego. São esses os olhos que nos fixam, indizíveis.