-Pois, por onde hei-de começar?- e, proferida esta interrogação,
interrompeu-se, enquanto a outra fixava, expectante, a sua boca entreaberta pela
modulação da última sílaba. Com o silêncio a expressão tornou-se ausente. Desistira?
Enfim, talvez não tivesse nada de relevante que merecesse ser dito e ouvido. Percebendo
que a sua interlocutora estava a impacientar-se, procurou retomar uma ponta do
discurso. Havia uma ponta já preparada, mas a meada embrulhara-se.
- Eu acho que nos devemos procurar definir a partir de uma matriz de
comportamentos inatos ou algo que o valha. Coisas que nos são reveladas desde
muito cedo, bem lá atrás, através de situações concretas, que são identitárias.
Comportamentos que estão de acordo com atitudes e valores que funcionam como uma
espécie de software de sistema, tão
próprios como a forma do nariz e das mãos.
A outra limitou-se a encolher os ombros, mantendo a mesma atitude tensa.
-Tomando esta perspetiva e particularizando uma caraterística, há
pessoas que se entregam a outras, a uma ou a várias, com o fito de
se encaixarem melhor num grupo de pertença, consolidando a confiança, as sinergias, obtendo prazer, o que seja. E no extremo oposto, temos aquelas que apenas afloram a
vizinhança dos outros e não lhe dão azo a maiores aproximações. Reconhece-las
facilmente no balneário de um ginásio. Independentemente da aparência,
sentem repulsa em despirem-se junto dos outros utentes. Odeiam a exposição e a
banalização do seu corpo pelos olhares dos outros. Não gostam de dar confiança a estranhos, pois vivem no seu templo.
- Está bem, Diana. Isso parece-me antes uma fobia. Mas onde queres chegar? Bem sabes que muito de nós é
adquirido – juntou Ana, ao mesmo tempo que rodava o corpo de 90º sobre o
assento, colocando-se de perfil, como se quisesse evitar o embate frontal das
palavras da outra na sua face.
- Moldei-me deliberadamente. Primeiro, quis dominar-me e submeter-me de
forma sistemática, e depois pretendi, ao invés disso, libertar-me e conduzir
o meu desejo, resgatado à razão, como se fosse um Ferrari com o depósito atestado.
O pé tão nervoso quanto a máquina. Não resultou. Encher o carro de gente tão
doida quanto eu e tu seriamos capazes de ser ou atropelar ou suicidar-me de
encontro a um muro não estão no meu programa. É neste ponto que nos demarcamos.
Não podemos fazer uso da liberdade da mesma forma. Então Diana agarrou o
pulso de Ana, e, por fim, convicta, concluiu – a confiança é a
base de todas as relações. De forma livre, tu espalhas-la por quem te apraz enquanto eu a reservo para uma pessoa de cada vez, de quando em vez.
