De súbito pareceu-lhe que o chilreado das andorinhas teria surgido de outra dimensão. Sentada num banco de madeira, junto à porta de um bar, aguardava, com os pés na estrada, pelos tacos de frango com pera abacate, que havia encomendado há já algum tempo. Entrincheirada na rua estreita, que começava a recobrir-se de prússia, seguia, no céu livre, o rasto das andorinhas que se lançavam na liquidez do fim da tarde. Pressentiu dali o seu desígnio. A sua liberdade estava acima de todos os escolhos e becos sem saída. Estava acima dos argumentos que nos canalizam através das linhas de esgotos; das campanhas promocionais incontornáveis; das armadilhas dos afetos; da figura, a sua, que ressurge, a cada dia, no espelho e se olha sem referente; das análises clínicas que nos informam sobre a qualidade do sangue que avança, sem que lhe o peçam, pela rede vascular; dos raios X que revelam elementos de uma paisagem branca, comprimida entre os músculos, acima dos algares em que mergulham os nossos órgãos fiéis e incansáveis.
As andorinhas projetavam-se para a frente, planando ou agitando energicamente as asas, na captura do último alimento do dia. Eis o seu exemplo, singular e coletivo. Mas ela continuava ali; um ponto sobre uma frincha do casario centenário, onde tantas memórias de existências, como a dela, haviam perecido. E saboreava esse mesmo veneno, que sabia esvair-se das paredes em redor, ao mesmo tempo que degustava a nitidez das silhuetas negras, na tela imaterial do céu, como se tal evidência fosse a sua última prova de vida.
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