sábado, 15 de outubro de 2016

A digestão de um anjo (versão n)



Deixa-me debruar as asas, entre as pedras de sal, no pó do café

Quero perder penas, pois que o vento as arrecade

Penas arrancadas, no esforço do desapego

Ao tempo o que é do tempo, ainda que o presente me pareça depenado

Sou de vidro, diáfano, quase polido

Debruço-me sobre ti, apoiado numa aresta quebrada

Observo-te através do rubi de um cálice meio cheio, mas, claro, meio vazio

É fácil recolher-me agora, entre os cotovelos e os joelhos, saciado, após o repasto

Entorpecido pela vertigem do vinho que me tomou o sangue

Antes que a pena morda a cor deste dia




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