segunda-feira, 29 de maio de 2017

Lembrando o que lembrava

Era eu muito nova e caminhava junto do meu pai. Nessa altura, ainda mal o conhecia. Aliás, eu ainda estranhava tudo, tanto os fenómenos da natureza, como o comportamento das pessoas. A estranheza causava-me uma sensação simultaneamente agradável e desconfortável, entre a surpresa e o déjá-vu. O meu pai era um estranho que tanto podia ser afável como distante. Então, muito sério, ele pôs-se a contar uma história mirabulante, em que os intervenientes tropeçavam e rebolavam em cadeia. Ri-me, feliz por ele ter estendido aquela ponte entre nós, e acentuei o meu interesse pelas suas palavras. Veio o dia em que o meu pai morreu. O acumular de anos sobre esse facto tornou-o vago e inverosímil. Quase duvido que alguma ele vez tenha existido. É pois surpreendente que a estranheza original ainda hoje me perturbe.

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