Deslizando ao longo da estrada habitual, sob a luz
incendiária do princípio do outono, noto as árvores, através das manchas luminosas com que se destacam na paisagem. Detenho-me num grupo, numa, noutra, nos ramos retesados no ar, oferecendo a delicada folhagem. As árvores que ora são beijadas pelo Sol ora suportam no corpo lenhoso as
intempéries e a incerteza. Há quanto tempo me faço a esta estrada, acelerando
sobre fragmentos de sonhos, contornando frustrações, enquanto revejo pormenores mais urgentes do quotidiano. Às árvores peço identidade, aquela que elas dão aos lugares. Às raízes,
solicito que me retenham, pois a estrada que bordejam, e que percorro
ininterruptamente, não anuncia promessas. De um lado, a serra insinua mistérios, mas o futuro já se estreita pela frente. À
minha direita, acompanha-me o banco vazio, atrás a pasta do computador, o saco
das compras. Ainda, pois, talvez! Ainda gostaria de fazer isto; não, não gostaria de fazer nada, não
vou perder mais tempo com aquilo. Das árvores, pretendo a lenha fria mordida pelo vento e, mais ainda, o balanço que emprestam às aves, quando delas se desprendem.
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